A Chácara do Bacacheri
Alguns dias depois de voltarmos da viagem à Argentina, retomei o percurso que faço quase diariamente aqui no Bacacheri. Levei meu cachorro, o branquíssimo Snow, para passear de manhã. Tradicionalmente, passamos pela casa bordô com janelas verdes, por uma escultura de uma mulher negra de lábios vermelhos na sacada e, finalmente, por aquela com um papagaio na garagem. Naquele dia, porém, Snow me conduziu por outro caminho, naquela manhã fria e enevoada de Curitiba.
Provavelmente por manter a cabeça sempre direcionada ao chão, mais interessado na grama úmida, Snow não percebeu que o Bacacheri, naquela parte, é bem menos atrativo. As casas excêntricas dão lugar a prédios baixos e de cores pálidas. Das janelas de alguns deles, cachorros observam, tristes, o passeio de Snow, que segue indiferente.
Mais à frente, ele vira em uma rua à esquerda, que julguei ter visto certa vez. Veio-me alguma memória vaga em que eu e Débora passávamos por ali de carro. Era uma rua sem saída, que terminava em um prédio bege de dois ou três blocos. Um prédio bege de dois ou três blocos, repeti mentalmente, enquanto Snow fazia outro xixi.
Porém, à medida que ele seguia em busca de mais porções de grama, fui desconfiando da fidelidade da memória. Porque nenhum dos blocos apareceu, e a neblina deixou tudo mais indefinido. Instigado, tentei apressar Snow, que resistiu à puxada da coleira e venceu o breve duelo. Só pude, de longe, perceber não um bloco, mas um pinheiro, meio escondido por detrás da névoa.
Quando chegamos ao final da rua, dei-me conta da traição. Em vez de blocos, deparei-me com um portão de ferro, bem alto, que descia em curvas, com flores desenhadas demarcando cada nível até o chão. Ferro gelado, notei ao encostar a testa. E, além daquele pinheiro, contei mais dois ou três, que percorriam um vasto campo verde, interrompido somente por um declive, onde a neblina parecia descansar.
Foi quando pus a mão na alça do portão que Snow, pela primeira vez, se desinteressou da grama. Ele me olhou fixamente, em posição vigilante, como se quisesse adivinhar meu próximo movimento. De tão magnético, afrouxei um pouco a força e deixei a alça suavemente retornar à posição original. Voltei a apenas observar, o que tranquilizou Snow, que tornou a aspirar avidamente.
Automaticamente, busquei alguma casa que identificasse o lugar. Quem sabe uma no estilo “casa-grande”, com alpendre e uma rede pendurada. Ou só um casebre, em que o lençol no varal desse forma ao vento. Talvez uma mais moderna, com o beiral protegendo a janela do quarto do menino. Mas a Chácara do Bacacheri, assim a denominei, não tinha qualquer vestígio humano.
***
— Amor, você não vai acreditar — contei a Débora, antes mesmo de tirar o tênis.
Como de hábito, ela primeiro deu atenção ao Snow.
— Lembro, lembro — confirmou, indiferente, à descrição do prédio bege de dois ou três blocos.
Quando jurei que, no lugar dele, haviam colocado uma imensa chácara, sem vestígio humano, ela achou graça, me deu um beijo e me deixou no meio da sala. Perplexo e, principalmente, enganado.
Eu poderia ter revisitado a morada da memória e talvez confirmado que a Chácara do Bacacheri sempre esteve ali, não fosse o Snow. Já sentado no sofá, sereno, com as patas cruzadas, me olhava com benevolência. Se não posso confiar na minha memória, o olhar do meu cachorro foi suficiente.

