Frederico e Salieri
Mal tínhamos retornado ao Bacacheri quando Frederico, um grande amigo, naturalmente apelidado de “Fred”, me mandou a mensagem: “Badé, estamos indo pra Buenos Aires! Próximo sábado!”. No imediatamente seguinte. Não com seis meses de antecedência, como eu e Débora cuidadosamente planejamos. Ele me explicou que sua esposa teve de tirar férias, que o Nordeste estava caro e que não sei mais o quê. Gentilmente, quase no automático, coloquei-me à disposição para qualquer dica. Uma semana e pouco depois, ele me enviou quatro ou cinco áudios e uma dezena de fotos da bem-sucedida viagem.
O casal não estava em lua de mel, mas também ficou em um hotel na Recoleta. O primeiro áudio explicava que o quarto era grande e dispunha de uma pequena sala, conforto do qual o nosso carecia. Havia até serviço de quarto, por meio do qual pediram um “ojo de bife” que, segundo Fred, era melhor do que o de alguns restaurantes. Foi em seguida que comparei os preços das respectivas hospedagens e lamentei que eram mais semelhantes do que eu imaginava.
Sendo início de maio, Buenos Aires exibia temperaturas amenas, o que facilitava as caminhadas e até diminuía o número de turistas, o que também é desejável. Lembrei do dia em que eu e Débora decidimos voltar mais cedo para o hotel, exaustos do sol e de um japonês que foi grosseiro com ela na entrada de um museu. Frederico completou dizendo que as árvores ficam ainda mais bonitas no outono. Mentalmente, achei a descrição desnecessário e pobre.
Pulo para o próximo áudio e recebo o relato de uma livraria no bairro do Retiro, de curiosa orientação: no centro dela, um senhor se sentava diante de uma enorme mesa, sobre a qual estavam uma caneca, um cinzeiro e várias peças de madeira. O simpático dono, além de vender livros, trabalhava com marcenaria. Os livros orbitavam ao redor dele, como se fosse um planeta à parte. E ainda usava monóculo. “Um monóculo, Badé!”, Fred quase vibrou ao final do áudio, sozinho.
Leitor destas crônicas, acertadamente ele evitou os shows de tango. “E você não acredita, cara...” — acertou novamente. Fred me contou que sua esposa descobriu um site de venda de ingressos remanescentes para o disputadíssimo Teatro Colón. O mais elegante teatro da América Latina só recebe espetáculos de música clássica, balé e ópera. Os ingressos costumam ser comprados com meses de antecedência, exceto para o inacreditavelmente sortudo casal. Quando vi a foto dos dois, bem-trajados, sob o teatro repleto e majestosamente vermelho, afastei o celular, fingindo desinteresse.
Fui até a geladeira e abri uma água com gás. Lembrei que, por lá, elas têm tampas azuis e não, como eu julgava que deveriam ter, amarelas, vermelhas ou verdes. Queria dividir isso com Fred, mas imaginei que ele teria pena da minha pobre lembrança. A plateia do Teatro Colón riria de mim, e eu olharia para meu rival como Salieri olhava Mozart — pelo menos no filme “Amadeus”.
Foi talvez o agradável gole de água com gás, de uma garrafa com tampa amarela, refrescante e efervescente, que me fez pensar melhor. Peguei de novo o celular e não mandei um “jóinha” para todos os conteúdos, no melhor estilo passivo-agressivo de WhatsApp.
A viagem a Buenos Aires havia ficado para trás e rendido algumas crônicas. Foi muito melhor do que imaginávamos, e até hoje eu e Débora a recordamos com carinho. Agora ela seria a viagem de outros casais apaixonados, em lua de mel ou não.
E dei meu primeiro passo, quase um ato de fé: “Fico feliz que gostaram, Fred”.


Lembranças pra vida!