Seu Azor e Maninho
Seu Azor sai todo dia de casa às sete da manhã, só depois de deixar o café dela pronto. A garrafa térmica é posta sobre o papel-toalha, para não manchar a bancada branca. A xícara e o pires, com flores desenhadas — presentes do casamento — ficam ao lado. Ele veste um conjunto esportivo azul, calça o tênis e vai, sozinho, ao Parque Bacacheri.
Diariamente, dá uma volta e, nos fins de semana, completa uma e meia. Gosta da névoa pairando acima do rio e do cheiro de gramado úmido. Quem caminha nesse horário conversa pouco ou quase nada. Assim, Seu Azor consegue ouvir melhor os próprios pensamentos.
Os dois se casaram cedo: ele com 19 anos, ela com 18, quando Seu Azor sequer tinha emprego. Prometeu que logo se ajeitaria, assim que se juntassem de vez. Ela deu fé à promessa, e Seu Azor diligentemente a cumpriu ao longo dos anos. Não sem a ajuda do pai, que lhe legou um caminhão para começar a vida. Vermelho, com o rosto do Cristo olhando para cima, em piedade, pintado na parte de trás.
O serviço começou a vir com frequência e então tentaram o primeiro filho. Imaginava o piá sentado na cabine, sempre de cinto, enquanto conversavam entre um conselho e outro. Ou talvez nem desse tantos conselhos assim, deixando que ele aprendesse as coisas da vida por conta própria. Poderia fazer carga ou, se quisesse virar doutor, melhor ainda. Ela — a mãe — provavelmente preferiria.
Já tinham até um quarto mais ou menos preparado. De manhã, ela abria a janela, como fazia com todos os outros cômodos, e passava um produto com cheiro de lavanda. Repreendia Seu Azor quando ele achava razoável deixar ali suas coisas, como a caixa de ferramentas depois de usada. Exigia que o lugar estivesse sempre organizado.
Mas o teste insistia no negativo — duas listras vermelhas indicando que, ainda, o piá não viria. Depois do resultado, o dia seguia silencioso, sem qualquer conversa. Seu Azor percebeu que ela começava a inventar desculpas: não tinha na farmácia, hoje estava corrido, ou simplesmente não encontrei a caixinha em casa. “É vontade de Deus, meu bem”, tentava confortá-la.
O quarto passou a ficar mais tempo fechado, com a caixa de ferramentas permanecendo aberta, até ele notar o próprio descuido. O cheiro era só o da madeira antiga dos armários vazios. Seu Azor passou então a cuidar um pouco mais: abria a janela de manhã e guardava a caixa de ferramentas, sem que ela pedisse.
A feira de cachorros ficaria aberta durante todo o mês, aos fins de semana. Os cães ficavam expostos no estacionamento do shopping, aquele ao lado do trilho do trem. Seu Azor comentou que iria dar uma olhada e notou a curiosidade dela.
“Maninho”, sugeriu como nome, e ela gostou, rindo em assentimento. Era o apelido secreto do seu pai, que ouvia de certos amigos e nunca soube o motivo. “O Maninho”, escutava nas mesas de jantar, no jogo do Athletico ou no Clube Duque de Caxias, onde ele ia jogar bola de vez em quando.
Maninho nunca dormiu no quarto do piá e tinha a cama colocada em um canto da despensa. Mas, à tarde, podia deitar no chão, quando o sol iluminava o piso. Os olhos se fechavam lentamente e se abriam rápido quando a campainha tocava. Um rosnar ao mudar de posição.
Seu Azor desacelera o passo na caminhada quando vê um cachorro da mesma cor de Maninho, cheirando algum poste no Parque Bacacheri. É pena que os mais jovens se assustem com a interrupção abrupta e desajeitada dele. A maioria finge não ouvir e puxa o cachorro pela coleira. Alguns poucos sorriem de volta, sem muito entender, quando Seu Azor comenta:
— Eu também tive um cachorro. “Maninho”, o nome.

