Vô Braz
“Operário morre no domingo pra não atrapalhar o serviço de ninguém.” Acho que é um início de crônica melhor do que aquele, de uma das primeiras que escrevi, logo depois da minha mãe nos chamar à cozinha e explicar a sua situação, vô. “Câncer” foi quase sussurrado, como se a doença exigisse respeito. Sei que precisei escrever sobre você e lancei mão do clichê, roubado de Os Sertões: “meu avô, antes de tudo, é um operário”. O texto ficou parecendo um estranho obituário e, desde então, já se passaram quase dez anos.
Envelheceu mal a crônica, vô. Ao contrário do senhor. Porque você continuou trabalhando diariamente e só parou quando faltou ar. Viu os netos crescerem, um deles casar e até descobrir que teria um bisneto. Naquela noite, nós ligamos para você e, depois do choro dividido, fez uma piada mórbida, como uma daquelas de que tanto gostava: “Se precisar de fralda, eu tenho aqui.”
Na vigília no quarto do hospital, da qual participei arrastado pelo exemplo implacável de seus filhos, achei curiosa a sua identificação na parede, logo acima da cama: nome, data de nascimento e nome da mãe. Então, no final, como eu já desconfiava, somos apenas isso. Nem esposos, nem pais, nem avós, nem bisavós. Apenas filhos da nossa mãe. Fragilíssimos, carentes de cuidado e de olhos espantados.
Quem teria mais vida, vô? Você, arqueando o peito, com toda a força, em busca de um fio de ar, ou seu bisneto, dentro da barriga da mãe? Os dois com pulmões vulneráveis, afinal. A única diferença era que um deles era elogiado pelos médicos. Queria conversar a respeito tomando mais um café na mesa da sua cozinha. Só mais uma xícara, vô.
Então minha mãe nos trouxe outra notícia, na semana passada, agora com “câncer” bem pronunciado. Pela saturação, não sabíamos o que poderia acontecer com você no dia seguinte. Você estava mal, mas estava lúcido. “Despedida” era a palavra que agora calava.
Outra piada de mau gosto, pensei. “Se o senhor sair daqui, mudo o nome do piá para Braz.” Você riria e completaria: “Pelo amor de Deus, pra que fazer isso com ele?”. Mas talvez você não entendesse e ela não fizesse a menor graça. O silêncio, quem sabe, serviria para sufocar o choro e não constranger ninguém. Ou, melhor, você estaria dormindo, bem na minha hora de visita, e eu teria a desculpa.
Mas seus olhos estavam fixos na TV, com a respiração sôfrega e tão espessa. Peguei a mochila devagar e até chequei o celular para ver se havia algo mais importante, vô. Queria ganhar tempo, como se isso fosse possível. Conversei com a vó, sua companheira até o último suspiro, e disse que tinha que ir ao trabalho. Fui até o seu lado e peguei na sua mão. As palavras vieram antes que eu pensasse.
— Te amo, vô.
E, depois de tantos anos pegando sua mão com suavidade, abraçando-a para não machucar, você pareceu deslocar a força do peito e colocá-la no pulso. Apertou minha mão com firmeza e até me assustei. Como se me ensinasse, de novo, a cumprimentar. Seus olhos se contraíram um pouco, e você balançou a cabeça afirmativamente. Não desviei o olhar, vô.
— O vô também te ama.
Minha avó disse o que era óbvio, mas que precisava tanto ser dito.
Acho difícil alguém dizer que eu, antes de tudo, sou um operário. Quem sabe, aos seus oitenta e poucos anos, vô, isso mude. Mas, depois da despedida, fui ao trabalho ou, como você prefere, ao “serviço”. Segurei o choro, ali entre o peito e a garganta, torcendo para que ninguém me perguntasse se estava tudo bem. Mas fui responsável, diligente e fiz o que tinha que fazer.
Como você fez sua vida inteira.
Fique com Deus, vô.
E que Santa Paulina, sua santa de devoção, interceda por nós por aqui.
Te amo, vô.
E que saudades já.



Meus sentimentos.
Muito bonito.